
Mais de 14 mil imóveis condenados em cinco bairros de Maceió: Pinheiro, Bom Parto, Mutange, Bebedouro e Farol. Após décadas de mineração, parte da capital alagoana passa por um lento processo de afundamento do solo que abre rachaduras em ruas, prédios e casas, obrigando cerca de 55 mil pessoas a abandonarem suas residências e seus negócios.
A tragédia urbana em curso transforma áreas inteiras em bairros fantasmas, um problema que ainda está longe do fim, já que o solo continua afundando lentamente. “10 anos é o tempo médio necessário à estabilização. Poderá ser mais ou um pouco menos”, avalia o pesquisador e especialista em geotécnica e geologia, Abel Galindo Marques.
As primeiras rachaduras surgiram no bairro do Pinheiro, após fortes chuvas em fevereiro de 2018. Ainda eram poucas, mas elas aumentaram quando um tremor de terra foi sentido em diversos bairros duas semanas depois, no dia 3 de março do mesmo ano. Era o início de um vasto trabalho de investigação e de um drama para milhares de famílias.
A empresária Áurea Montes morou durante 22 anos no bloco 23 do Conjunto Jardim Acácia, no Pinheiro. Ela relembra com carinho os episódios que marcaram sua vida durante o tempo em que viveu no apartamento com o marido e o filho, até ser obrigada a abandonar o lar por risco de desabamento.
“Minha memória mais marcante no Pinheiro foi o nascimento do meu filho. Ele nasceu e cresceu lá, fez amigos, brincou nas ruas do bairro. Foi lá que ele aprendeu a andar de bicicleta, correu na rua, jogou bola. Ele começou a vida escolar, passou no vestibular, entrou na Ufal. Todos esses momentos eram compartilhados com minhas vizinhas de prédio”, relembra emocionada.
Quando soube que teria que deixar o apartamento com as outras famílias, ficou em choque.
“Foi com muita tristeza e indignação que a gente recebeu a notícia [da desocupação]. Ficamos confusos sem saber o que estava realmente acontecendo. Foi assustador. A gente não sabia o que estava acontecendo de verdade nem o que pode ainda acontecer. Bateu uma tristeza tão grande, foi muito choro”, disse Áurea
Somente um ano depois das primeiras rachaduras foi confirmado pelas equipes do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), órgão ligado ao governo federal, que a extração de sal-gema (minério utilizado na fabricação de soda cáustica e PVC) feita pela Braskem na região onde existiam falhas geológicas provocaram a instabilidade no solo. As rachaduras vistas nas ruas e nos imóveis são reflexo dessa movimentação.
Em maio de 2019, a petroquímica multinacional interrompeu a mineração e paralisou a operação da fábrica de cloro-soda na cidade. Nessa época, as rachaduras já tinham atingido bairros vizinhos: Mutange, Bebedouro e Bom Parto. A fábrica voltou a operar em fevereiro de 2021, mas com sal importado do Chile.
Atualmente, mas em menor escala, a instabilidade também já afeta alguns imóveis no Farol, 5º bairro incluído oficialmente no monitoramento dos órgãos de segurança. A área atingida neste bairro é pequena, mas obrigou o único hospital psiquiátrico público de Alagoas a mudar de endereço.

A Defesa Civil de Maceió elaborou o Mapa de Linhas de Ações Prioritárias (clique aqui para abrir em alta resolução), que está em sua quarta versão. O documento (imagem acima) recomenda a realocação dos imóveis e monitoramento constante das áreas com instabilidade (na cor verde). Ele mostra também a localização de cada mina explorada pela empresa (em círculos cinza).
Porém, a mineração já tinha deixado cavidades, minas ou cavernas sob o solo. Atualmente, 35 cavernas estão identificadas e a mineradora informou que segue monitorando a região para acompanhar a evolução de sua estabilização.
A Braskem explica que elas estão sendo fechadas com a técnica mais apropriada para cada uma (com cimento, areia ou rochas) e que o plano de estabilização e monitoramento é aprovado junto à Agência Nacional de Mineração (ANM).
É esse processo de preenchimento que deve fazer com que o solo pare de afundar. “Quando a rocha salina é desestabilizada, que é o caso, ela começa a fluir milimetricamente ao longo dos anos. Ela se torna uma massa mole se deformando na direção das cavernas. Se, ao invés de areia, essas cavernas fossem preenchidas com concreto, uma operação muito difícil, a estabilização seria em pouco tempo”, explicou Galindo.
As pessoas que vivem nos bairros vizinhos aos afetados temem uma tragédia maior, mas o pesquisador descarta risco de afundamento repentino.
“O afundamento é ao longo da Av. Major Cícero de Góes Monteiro, entre o IMA e o Colégio Bom Conselho [no Mutange]. O processo é lento, entre 1,0 cm e 2,5 cm por mês. 75% das 35 minas [de sal-gema] situam-se nessa área da avenida. Por isso não há aumento do risco nas áreas de instabilidade do afundamento do solo”, afirma Abel Galindo.
O levantamento mais recente indica que dos 14.402 imóveis com recomendação para desocupação, 13.871 já foram esvaziados. Os moradores levaram deles o que podiam reaproveitar, até mesmo portas, janelas e telhados.
“Perdemos nossa história, nossas memórias, nossas lembranças da infância, da adolescência. Isso se repete aos milhares nos 5 bairros. Vivemos um luto coletivo não reconhecido”, lamenta Alexandre Sampaio, ex-morador do bairro do Pinheiro.
Sampaio é jornalista e atualmente preside a Associação dos Empreendedores no Bairro do Pinheiro e região afetada pela Braskem. Ele tinha 3 empresas no bairro e se viu obrigado a mudar toda sua vida por causa dos efeitos da mineração.
“Nossa vida, nosso sustento e nossos planos de aposentadoria, como empresários, estavam ali no Pinheiro. Quando tudo veio à tona, entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, vimos nossos planos literalmente afundarem com as rachaduras provocadas pela Braskem: em menos de 3 meses fomos obrigados a mudar em caráter de emergência pela falta de clientes, queda brutal de 80% do faturamento e medo de permanecer numa área de risco”, relembra.
Mas há quem não tenha conseguido deixar o bairro. “Ficar distante é desgaste, as lembranças estão aqui. E ainda tem muita gente por aqui, amigos nossos que não saíram do bairro”, conta a empresária Áurea Montes, que se mudou para um imóvel a apenas 1 km de distância da antiga moradia interditada.
“Da minha janela eu via quando meu filho chegava, via minha vizinha, o movimento das crianças na rua, os filhos dos vizinhos que você viu nascer, crescer… nós éramos como uma família. É uma vida, as lembranças são imensas”, relembra.
O prédio em que Áurea morou continua de pé, embora tenha sido completamente desocupado e lacrado. Mas outros imóveis já nem existem mais. Oito blocos do conjunto Jardim Acácia e o Edifício Hermon foram os primeiros demolidos porque as rachaduras comprometeram suas estruturas a tal ponto que o risco de desabamento era iminente.

Nem todo mundo foi obrigado a deixar suas casas. Algumas poucas ruas não tiveram indicação de realocação e os moradores que continuam morando nestes bairros dizem que as rachaduras avançam sobre áreas que ficaram fora do mapa da linha de ações. Um problema que deixa em suspenso a vida de quem vive na incerteza do futuro.
“Eu não tenho vergonha de dizer que estou tomando remédio pra dormir. Porque quando eu deito na minha cama, eu vejo [as rachaduras]. Essas fissuras estão aumentando e nos deixando angustiados. Você viver em um bairro, ver escombros e mais escombros e a gente aqui?”, questiona aos prantos a dona de casa Lúcia Carvalho, que mora em um prédio no Pinheiro.







