

O objeto ficava numa torre separada da igreja e estava protegido por grades atrás e na frente. Para levar o sino, os criminosos arrombaram um cadeado fixado à grade na parte de trás da torre. O local não possui câmeras, mas a polícia está utilizando outros recursos para apurar o caso.
Padre responsável pela paróquia, Ewerton Martins relatou que, na quarta-feira, uma das lideranças esteve na igreja e sentiu falta do sino. Ele lembrou que a igreja de São Miguel, por ser isolada da comunidade, já foi alvo de furtos no passado.
“A igreja fica num lado da BR-101 e a igreja do outro. Há um tempo, tentaram furtar o sino e até quebraram a estrutura do campanário, mas dessa vez, infelizmente, acabaram levando a peça, que é um bem histórico”, detalha Martins. O padre disse que foi feito boletim de ocorrência e a polícia procura quem teria praticado o crime.
“Soubemos que eles [a polícia] procuraram em alguns locais pelo sino, porque podem ter duas situações: pode ter sido furtado por alguém que queira desmanchar o sino para utilizar o material. E pode ser que furtaram porque é um bem histórico, porque existe, também, o furto de bens históricos, que já ocorreu na nossa igreja, como o furto da imagem de São Miguel, que hoje fica no Centro de Biguaçu, por segurança”.

A ocorrência foi atendida pelo 24º Batalhão da PMSC (Polícia Militar de Santa Catarina). Segundo o tenente Nunes, a falta de câmeras no entorno da igreja dificulta a investigação.
“Estamos trabalhando em conjunto com a Polícia Civil, a quem compete a apuração da infração penal não militar e fazendo a coleta de imagens com a vizinhança e arredores para definir a autoria”. Pelo tamanho do objeto furtado, Nunes acredita que o crime foi planejado e feito sob encomenda.
Para não prejudicar as investigações, a comunidade de Biguaçu foi orientada a não se manifestar sobre o caso. A exceção foi a dona Diva Siqueira Sobrinha, que mora perto da igreja, e falou ao repórter Arliss Amaro, da NDTV. Dona Diva, entretanto, perdeu a esperança de ver e ouvir novamente o imponente sino.
“Para mim, não tem mais volta, já deve ter um receptor, devem ter derretido. Já devem ter dado fim”, lamenta dona Diva. Ela conta que o sino que restou na torre, inclusive substitui outro furtado em décadas passadas.

Patrimônio histórico e alvo fácil de criminosos
Inaugurada em 23 de janeiro de 1751, a Igreja de São Miguel Arcanjo foi demolida em 1798. A estrutura antiga estava em ruínas e deu lugar a um templo construído com tijolo, em estilo tipicamente luso-brasileira com frontão reto.
A Igreja São Miguel Arcanjo faz parte do Conjunto Luso-Açoriano de São Miguel, que foi tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 14 de novembro de 1969 e é composto, ainda, pelo aqueduto e pelo sobrado do Museu Etnográfico Casa dos Açores. Uma década após o tombamento, a igreja foi alvo de um crime semelhante ao da semana passada.
Na ocasião, uma imagem de São Miguel Arcanjo foi levada por criminosos e encontrada somente em 2011. O Santo estava à venda, por R$ 700 mil, numa loja de leilões de objetos de arte no Rio de Janeiro. O dono do antiquário disse para a Polícia Federal, à época, que comprou a peça em São Paulo e não sabia que tinha sido furtada.

A imagem, de um 1,4 metro de altura vinda de Portugal no século 18, foi esculpida em madeira e tem detalhes em ouro. Tanto a igreja, quanto a imagem são patrimônios tombados.
Na década de 70, além do Santo, outros objetos foram levados: um sino de bronze, também doado pelo rei Dom Pedro II, um cálice de ouro maciço, uma coroa e um cetro de prata, a espada e o cinturão de São Miguel.
Em dezembro de 2011, o Santo foi enviado para a sede da Polícia Federal em Florianópolis. Atualmente, entretanto, está numa sala pequena, abaixo de uma das torres da igreja matriz de Biguaçu.
Pela falta de segurança, jamais se cogitou o retorno para a Igreja de São Miguel, evitando desfecho semelhante ao do sino furtado na semana passada.





