
A empresária Joselaine Cunhanski está comemorando a redução do preço do óleo de soja . Na última compra, ela pagou R$ 4,38 o litro do produto. “Baixou mesmo”, ressalta. Ela é proprietária, junto com o marido Rafael Cunhanski, da Santo Salgados, uma fábrica independente de petiscos para festa em Ponta Grossa (PR).
A empresária conta que utiliza em torno de 40 a 50 litros de óleo de soja por semana. No mês, coloca aproximadamente 200 litros nas fritadeiras industriais. Joselaine lembra que, durante a pandemia, chegou a pagar R$ 8 o litro. “Foram dois anos bem complicados, não dava para fazer um orçamento a longo prazo e tivemos que aumentar mais de uma vez no ano o valor dos salgados”, comenta.
Ela espera que a redução no preço do óleo se mantenha nos próximos meses, para não precisar reajustar. A marca comercializa salgados fritos e assados a pronta entrega, no delivery e sob encomenda. Os quitutes fritos – coxinha, pastel e bolinha de queijo – estão entre os campeões de venda.
Os recuos variaram entre -14,30% em Aracaju e -2,42% em Goiânia. Em 12 meses, o movimento foi de queda em todas as cidades, com destaque para Belo Horizonte (-39,90%), Campo Grande (-36,01%) e Rio de Janeiro (-35,74%).
Na análise, os pesquisadores do Dieese destacam que houve redução do preço nacional e internacional da soja e, ainda, que a demanda enfraquecida no mercado interno influenciou a diminuição dos preços praticados no varejo.
Em São Paulo, o óleo de soja foi o produto da cesta básica que apresentou maior diminuição no preço médio, de 7,15% entre abril e maio deste ano. No acumulado dos últimos 12 meses também, com queda de 28,22% na capital paulista.
Em Ponta Grossa, cidade paranaense em que Joselaine Cunhanski mora, o óleo de soja foi o item de maior variação negativa da cesta básica no grupo “alimentação geral”, no mês de maio, com queda de 9,96%, em relação ao mês anterior. O dado é do Índice da Cesta Básica de Ponta Grossa, calculado pelo Departamento de Economia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com base nos preços online dos produtos pesquisados.
“O percentual de queda do óleo de soja tem um peso significativo, porque trata-se de um produto que não tem variação muito grande no mês – isso é mais comum nos hortifrutigranjeiros. O impacto é realmente grande”, observa Alexandre Roberto Lages, coordenador da pesquisa do índice da cesta básica na cidade e economista da UEPG.

Lages enfatiza que o óleo de soja é um produto mais difícil de substituir, embora haja várias marcas disponíveis no mercado. Por isso, a redução do preço acaba refletindo em uma economia significativa no consumo mensal das famílias.
O economista também destaca a relevância da redução do preço do óleo no resultado final da cesta básica em maio, em Ponta Grossa, com queda de 2,27%. A compra dos 33 produtos que compõem a cesta básica passou a custar R$ 843,15, com 20 produtos com preços em queda e 13 em alta.
“O período está favorável para o consumidor, pois além da queda significativa do valor da cesta básica – o que não ocorria há vários meses – houve o reajuste do salário-mínimo”, salienta Lages.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), reforça o cenário. Em maio, o óleo de soja caiu 7,11% na média nacional. No acumulado do ano, a retração é de 17,10%. Em 12 meses, a baixa é de 29,49%. Um movimento contrário ao registrado no grupo alimentação e bebidas, de um modo geral, que teve alta de 0,16% em maio.
Por que o preço do óleo de soja caiu?
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), os preços do óleo de soja oscilaram em maio, mas as quedas predominaram, “devido às menores demandas externa e doméstica, sobretudo por parte do setor industrial”. A análise considera o preço com que o produto está saindo da indústria, sem levar em conta as demais etapas para o óleo chegar ao varejo.
O Cepea aponta que o óleo de soja bruto degomado (com 12% de ICMS incluso), negociado na região de São Paulo (SP), teve redução de 5,3% entre abril e maio e de expressivos 43,8% na comparação de maio de 2023 com o mesmo mês em 2022, com média de R$ 5.176,15/tonelada no último mês. Em termos reais (descontando a inflação) a média é a menor desde abril de 2020.
Lucilio Alves, professor da Esalq/USP e pesquisador da área de grãos do Cepea, explica que, no primeiro semestre de 2022, a guerra entre a Rússia e Ucrânia deixou muitas incertezas em relação às dinâmicas dos mercados e quanto à disponibilidade de grãos e cereais.
Por causa disso, os preços das commodities e de seus derivados começaram a subir, incluindo o óleo de soja. Outro fator é que boa parte do óleo de soja é utilizado para a produção de biodiesel, o que também influencia no preço do produto. Ele lembra que o preço do barril de petróleo atingiu US$ 100 em abril do ano passado, o que também influenciou na alta, uma vez que todos os combustíveis são regulados pelos preços do petróleo.
O óleo de soja é o segundo produto vegetal mais produzido no mundo, de acordo com Alves, só perdendo para o óleo de palma. É também o terceiro produto mais presente nas transações entre países, ficando atrás dos óleos de palma e de girassol. As incertezas, no ano passado, também em relação à oferta de girassol e de canola, foram fatores de interferência no preço.
Já neste ano, o mercado foi se reequilibrando internacionalmente, no que diz respeito às incertezas provocadas pela guerra. O preço do barril de petróleo, por exemplo, caiu para U$S 85. “Paralelamente a isso, temos um ambiente de crescimento, o que acaba gerando uma menor demanda por alimento e, consequentemente, por óleo de soja. O cenário atual é a junção de menos incertezas e demanda menor”, observa.
Quanto à manutenção do preço baixo do óleo de soja, Alves prefere não arriscar: “o preço médio de maio é o mais baixo desde julho de 2020, mas não dá para afirmar que a intensidade de queda vai continuar”.

O pesquisador considera que, ao se analisar a cotação do contrato futuro do óleo de soja na Bolsa de Chicago, há ligeira tendência de queda para os próximos meses. Ele também ressalta a influência, no Brasil, dos preços praticados na Argentina que, por sua vez, reduziu a produção de soja.
“A Argentina é o principal exportador de óleo de soja do mundo e, nesta safra, vai exportar menos”, adverte. Com isso, o Brasil pode ter a oportunidade de exportar mais óleo de soja. Outro benefício para o setor por aqui, na visão de Alves, é a determinação do aumento da mistura de óleo de soja no óleo diesel. “Esse cenário garantiria a sustentação do preço por pelo menos seis meses”, acredita.






