
Os jumentos, conhecidos por serem símbolos de trabalho, resistência e, principalmente, parte da cultura da região Nordeste, correm risco de extinção no Brasil. A afirmação ganha força ao observar a redução drástica no número de asininos nas últimas quatro décadas.
De acordo com a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, a população em 1996 era estimada em 1,3 milhão de animais, mas, atualmente, restam apenas seis a cada 100, uma queda de 94% em quase 40 anos.
“Os jumentos fazem parte da história do Brasil. Eles sempre foram tratados com carinho, tendo um papel essencial na agricultura familiar. A espécie é conhecida por seu patrimônio genético único e adaptado à região semiárida. Para evitar o desaparecimento, são três os caminhos sustentáveis: viver livre, trabalhar na agricultura familiar e reconhecimento como animais de companhia”, destaca a entidade.

Inicialmente, os jumentos eram usados no transporte de carga, meio de transporte ou montaria, mas o avanço da mecanização transformou o abate para a exportação no principal motivo para a redução da espécie no território brasileiro.
A maior demanda vem da China, país asiático onde a pele do animal é transformada em ejiao, produto de consistência gelatinoso feito com o colágeno. Vendido como um “elixir milagroso”, conforme a tradição milenar, possui propriedades medicinais relacionadas à nutrição, sistema imunológico, equilíbrio metabólico, antienvelhecimento e doenças ginecológicas.
China importa jumentos brasileiros para produção de ejiao — Foto: Canva/ Creative Commoms
A China conseguia atender a demanda da pele de jumento para a produção interna de ejiao com o próprio rebanho, porque, no passado, o produto possuía alto valor e baixa comercialização.
Mas, com o tempo, a procura aumentou, levando o país a praticamente esgotar a população de jumentos e, assim, buscar reposição em outros continentes, como o Africano e o Americano. Em poucos anos, os destinos mais acessados também registraram queda. Veja:
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China: redução de 86,36% entre 1992 a 2023
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Botsuana : redução de 75% entre 2008 a 2023
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Brasil: redução de 94% entre 1996 a 2025
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Quirguistão: redução de 61% entre 2008 a 2023

Jumentos podem ser extintos?
Em um estudo publicado recentemente pelos pesquisadores Sharacely de Souza Farias, Aline Rocha Silva, Rayane Caroline Medeiros do Nascimento, Marisol Parada Sarmiento,Tobyas Maia de Albuquerque Mariz e Pierre Barnabé Escodro, da Universidade Federal de Alagoas e da Universidade de São Paulo, a situação foi abordada a partir de reclamações apresentadas por órgãos públicos que questionam se o sistema de produção para a venda de pele opera sob padrões regulamentados ou segue um modelo extrativista.
“O abate de jumentos no Brasil para exportação tem consequências profundas a longo prazo, incluindo uma redução significativa na diversidade genética e um risco iminente de extinção de espécies”, destaca o documento.
Na conclusão da pesquisa, o grupo pontuou que “fica evidente que não existe uma cadeia produtiva de jumentos bem estabelecida no Brasil. Qualquer atividade dominada por maus-tratos a animais constitui uma prática extrativista insustentável, que, em última análise, leva à extinção da espécie. Portanto, é necessário um aumento na pesquisa sobre jumentos, dada a gravidade do problema e a escassez de estudos abrangentes na literatura científica”.

O risco é global
A queda na população de jumentos não é um problema exclusivo do Brasil. Outros países também sofrem com a perda de animais por causa da incessante procura da China pelo colágeno da pele para a produção de ejiao.
A situação no Quênia, no Continente Africano, por exemplo, foi destacada em uma publicação do The Donkey Sanctuary, entidade filantrópica britânica dedicada ao bem-estar dos asininos.
Lá, segundo o relatório, os jumentos são como parceiros das mulheres. “Eles carregam água e lenha, são usados para trabalhar a terra e atuam como um meio de transporte essencial ao levar pessoas e produtos para o mercado. Além de garantir uma renda, permitem o tempo necessário para cuidar dos filhos e cumprir suas responsabilidades domésticas e comunitárias”.
No entanto, o comércio da pele aumentou o número de roubos locais de animais. Como consequência, a prática prejudicou “não apenas a saúde, o bem-estar e as finanças, mas a saúde, a nutrição e a educação dos filhos”.
Fonte https://globorural.globo.com/pecuaria/noticia/2025/06/jumentos-podem-ser-extintos-no-brasil-entenda.ghtml
