O que Alexandria, cidade localizada no delta do rio Nilo, e o Estado de Santa Catarina têm em comum? Desde que o navegador veneziano Sebastião Caboto deu à ilha onde fica a atual Florianópolis o nome da santa egípcia, na primeira metade do século 16, existe um vínculo histórico e religioso entre estes dois pontos distantes do mapa mundi.
O dia 25 de novembro marca a passagem do Dia de Santa Catarina, Estado também batizado com o nome da jovem nobre e pagã que aderiu ao cristianismo na adolescência, defendeu a nova religião com sabedoria e obstinação e foi morta pelo imperador Maximino, inconformado com a influência de Catarina sobre os próprios doutores do império romano, cujos tentáculos se estendiam da Europa ocidental ao Oriente e à África.
Sempre houve uma dúvida acerca da origem do nome do Estado, por conta de versões que faziam referências à mulher de Caboto, Catarina Medrano, como a figura que batizou a então chamada Ilha dos Patos, posto de reabastecimento e conserto de embarcações no litoral sul do Brasil.
No entanto, a maioria dos historiadores descarta esta possibilidade e aposta que a ilha (e depois o Estado) ganhou esta denominação em homenagem à egípcia transformada em santa após ser decapitada no dia 25 de novembro do ano 305 da era cristã.
No livro “Santa Catarina de Alexandria – A origem, o mosteiro e a padroeira”, o jornalista Moacir Pereira conta a vida da virgem martirizada por suas convicções religiosas e dá detalhes dos fatos que a levaram à morte.
Há também uma descrição do mosteiro de Santa Catarina na península do Sinai, no Egito, e dezenas de imagens dela pintadas e esculpidas em países como Espanha, França, Itália, Croácia, Grécia, Colômbia, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, México, Rússia e Egito. Padroeira do Estado, da arquidiocese e da paróquia de Florianópolis, a santa é reverenciada em praticamente todos os continentes.
O jornalista fez parte da comitiva que visitou o mosteiro de Santa Catarina e o deserto do Sinai no ano 2000, liderada pelo ex-governador Esperidião Amin. Lá, o grupo catarinense conheceu relíquias, documentos e manuscritos seculares guardados pelos monges que administram o monastério.
“É um lugar sagrado do judaísmo, do cristianismo e do islamismo”, escreveu Moacir Pereira no capítulo dedicado ao complexo no Sinai. O local fica a 440 quilômetros do Cairo, 260 quilômetros de Suez e 150 quilômetros de Sharm-El-Sheikh, cidade turística do Egito situada entre o deserto da península do Sinai e o mar Vermelho.
Sabedoria a serviço da fé cristã
Se existem telas, gravuras, afrescos e esculturas de Santa Catarina de Alexandria em várias partes do mundo, Florianópolis não poderia ficar para trás. Há uma imagem dela na catedral metropolitana e um mural na praça Tancredo Neves feito pelo pintor e poeta Rodrigo de Haro (também autor do livro “Memória de Santa Catarina”, de 1992), falecido em julho deste ano.
A capela do Colégio Catarinense, também na Capital, tem o nome de Santa Catarina de Alexandria (é padroeira do estabelecimento), e uma imagem dela também pode ser vista na porta de entrada. E uma relíquia trazida do monte Sinai ornamenta a capela ecumênica do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, no aterro da baía Sul.
No mosaico de Rodrigo de Haro é informado que Ekaterina, seu nome de batismo, descendia de uma casa nobre – era filha do rei Costus e da rainha Sabinela. Sua mãe a apresentou à corte egípcia, instalada em Alexandria, capital do Oriente à época, sede de uma famosa biblioteca e do farol citado como uma das sete maravilhas do mundo antigo.
Cálices e peças litúrgicas antiquíssimas fazem parte do acervo do mosteiro do Monte Sinai – Foto: Reprodução/ND
O cristianismo florescia e, ao mesmo tempo, enfrentava forte perseguição do império dominante, temeroso de perder sua hegemonia. Depois de aderir ao cristianismo, por influência de um eremita que a instruiu na fé, e do posterior batismo, Sabinela tentou transformar a filha Catarina em discípula de Cristo, mas ela resistiu.
eza física, e Catarina impressionou doutores e foi cortejada por príncipes, reis e imperadores de seu tempo.
A entrega da vida em nome da crença
Todas as crônicas sobre a curta vida de Santa Catarina de Alexandria ressaltam suas discussões com os próceres do Império Romano, que radicalizaram as perseguições aos cristãos, sobretudo a partir do imperador Diocleciano e seus sucessores. Igualmente marcantes são os relatos sobre o martírio da jovem, resultado da decisão de desafiar as maiores autoridades romanas e seu paganismo.
O imperador Maximino, que reinava na parte oriental do império, queria Catarina em seu palácio, onde imaginava poder conter suas pregações em defesa do cristianismo em expansão. Na obra de Moacir Pereira, chama a atenção um relato dos embates entre Catarina e o imperador, descritos pelo pesquisador britânico Willian Ryan em livro publicado em 1983.
Maximino convocou dezenas de mestres da lógica e da retórica do reino para que argumentassem com a jovem rebelde na corte de Alexandria. Com muita habilidade, ela contradisse os oradores e suas teses e no final os convenceu a se converterem ao cristianismo. Todos foram lançados às chamas por ordem do imperador. Conta a história que, por milagre, eles morreram, mas não tiveram os cabelos e as vestes queimadas.
Trancafiada numa cela por 12 dias, passando dores e fome, Catarina recebeu a visita da imperatriz Augusta e a converteu, assim como ao capitão da guarda que a acompanhava e a dezenas de soldados do reino. Maximino mandou mutilar e matar a mulher e ainda insistiu em que Catarina se tornasse moradora do palácio, usufruindo de todas as benesses decorrentes de sua decisão.
Ela disse não à proposta e afirmou que preferia servir a um senhor “poderoso, eterno, glorioso e honrado” (referindo-se a Jesus Cristo) a escolher um “fraco, mortal, ignóbil e feio”. O imperador não viu outra saída que não fosse a tortura da jovem cristã.
O instrumento escolhido continha rodas com serras de ferro e pregos que estraçalhariam seu corpo – uma morte terrível e capaz, na crença de Maximino e seus áulicos, de intimidar o restante dos cristãos, minando sua fé. Um anjo teria destruído o engenho e provocado a morte de mil pagãos.
Catarina foi então condenada à morte por decapitação. Relatos dão conta de que após o golpe fatal do carrasco fluiu leite, e não sangue, de seu corpo, que foi levado pelos anjos até o monte Sinai.
Relíquias vieram do Sinai para Florianópolis
O capítulo que fecha o livro de Moacir Pereira trata de relíquias de Santa Catarina de Alexandria trazidas do monte Sinai para Florianópolis no ano 2000. São dois pedaços da costela da santa que estão expostos na capela do Tribunal de Justiça do Estado e na igreja de São Nicolau, da comunidade grega ortodoxa da Capital.
O processo para a transferência dessas relíquias envolveu negociações do governo do Estado com o arcebispo Damianós, que administra o monastério do Sinai, e a interferência do falecido monsenhor Angelos Kontaxis, da igreja ortodoxa em Florianópolis. Também foi feita uma solicitação oficial ao Patriarcado de Constantinopla (Istanbul).